Sexta-feira, 29 de Abril de 2011
Reforma do sistema educativo: tema incómodo mas urgente

Tornar Portugal num país mais competitivo não passa apenas pelo corte dos salários nominais, pela descida da TSU ou pela reforma da legislação laboral. Um aumento sustentado da produtividade do factor trabalho pressupõe uma reforma profunda no sector educativo. As reformas neste sector serão obrigatoriamente dolorosas e, uma vez que os seus resultados não surgirão senão ao fim de um mínimo de dez anos, torna-se improvável que qualquer partido esteja interessado em pegar no tema, ainda para mais face à comprovada força dos sindicatos do sector (sendo o expoente máximo o Prof. Mário Nogueira, um verdadeiro expert em conferências de imprensa e providências cautelares).

Os Portugueses trabalham mais horas e com o mesmo equipamento disponível e no entanto são menos produtivos! A lacuna está na pouca qualificaçãodo capital humano. Isto sucede porque o modelo educativo vigente está desenquadrado das exigências dum mercado de trabalho cada vez mais globalizado e competitivo. Inverter esta situação pressupõe uma reforma não só ao nível do ensino básico mas também do ensino secundário.

Vamos por partes. Relativamente ao ensino básico creio que o caminho passa por uma série de medidas que passo a referir:

  1. Tornar a Matemática, Humanidades (História, Filosofia), Português e o Inglês disciplinas obrigatórias ao longo de toda a vida escolar.
  2. Acabar com as 4 áreas de estudo opcionais a partir do 10º ano. Os alunos devem todos frequentar uma série de cadeiras obrigatórias (incluindo as acima referidas)  e complementar com determinadas cadeiras opcionais que se enquadrem com as suas apetências e escolha de estudos futuros (geometria, desenho, economia, psicologia, biologia, programação etc..)
  3. Apostar na componente tecnológica do ensino. Não me refiro à bacocada dos Magalhães (bacocada devido à falta de preparação dos docentes pois a ideia é muito positiva uma vez que levou as novas tecnologias e a internet junto dos infoexcluídos) mas sim a introdução de cadeiras de informática que preparem os alunos para interagir com as ferramentas Office e Web, cada vez mais um requisito do mercado de trabalho.
  4. Incluir no currículo a disciplina de Cidadania Responsável.
  5. Unicidade dos manuais escolares e respectiva subsidiação a famílias carenciadas. No inicio de cada ano lectivo o MdE deve definir os manuais oficiais que devem ser comuns a todo o sistema.

Todas estas medidas se prendem com o conteúdo educativo. Quanto à estrutura do sistema:

  • Criação (continuação) dos mega agrupamentos escolares. Não faz sentido manter-se abertas escolas com menos de 100   alunos. A alienação de imobilizado (mesmo que pouco significativa) deveria ser reinvestida na melhoria das infra-estruturas dos grandes agrupamentos (dotação de meios informáticos etc....)
  • Criação das escolas técnicas para os alunos que desejem aprender uma profissão especifica findo o 9º ano de escolaridade obrigatória. Esta medida pressupõe um investimento considerável, não na criação do espaço físico, mas na reconversão das instalações. Proponho o seguimento do modelo casapiano com as suas escolas de carpintaria, mecànica, relojoaria, joalharia, metalúrgica etc.....

Quanto aos agentes do sector, as medidas que proponho são bastante mais complexas e controversas.

  • Diminuir o número de professores. A verdade é que temos professores a mais pois tornou-se uma profissão de refúgio à falta de colocaçãonoutras actividades. Esta situação traduziu-se numa progressiva perda de qualidade do ensino
  • Regras mais apertadas para o ingresso na carreira docente. Devem ser professores não só aqueles que demonstrem conhecimento mas também vocação e apetência.
  • Especialização na carreira docente. Um professor deve ser responsável por uma só cadeira. No ensino, “multi tasking” nunca e uma boa medida.
  • Criar um modelo objectivo e simples de avaliação de professores. É inenarrável como esta classe continua sem ser avaliada. Como não sou um expert na matéria não proponho nenhum modelo em concreto. Contudo, creio que a avaliação dos professores deveria estar associada aos resultados dos seus alunos em exames de àmbito nacional ( que deveriam ser implementados a cada dois anos de escolaridade ) de forma a evitar possíveis distorções.
  • Reforço da autoridade dos professores e alteração do estatuto do aluno. O professor tem que ser a autoridade máxima dentro de uma sala de aula. Devem ser criadas regras que punam severamente a insubordinação e o absentismo, inclusive a expulsão do sistema educativo.
  • Encarecer o ensino. As propinas deverão ser aumentadas significativamente. Famílias carenciadas beneficiariam de descontos e isenções. As escolas devem ser auto-suficientes financeiramente e geridas de forma profissional embora sem o objectivo de criar lucro. (entendo a complexidade desta medida para escolas em meios desfavorecidos mas creio que os benefícios o justificam)

Como o post já vai longo deixo para mais tarde propostas para o ensino secundário.



publicado por HGjr às 11:59
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