Terça-feira, 26 de Abril de 2011
Impactos macroeconómicos de um hipotético pacote de medidas

Caríssimos,

 

Seguindo a discussão iniciada num post por Afonso Eça, em Cenário Macroeconómico - Parte I, e dando continuidade aos respectivos comentários feitos, fica aqui a minha opinião (o post é demasiado grande para caber nos caracteres destinados aos comentários).

 

Sem desrespeito pela opinião alheia (até porque o autor tem toda a minha consideração e admiração), na minha perspectiva este cenário tem alguns pressupostos errados e consequentemente tem uma conclusão pouco segura.  Um corte imediato nos salários nominais cria esse tal efeito de aumento da produtividade que é necessário para asegurar no curto-prazo (e no longo) a competitividade da economia e a solvabilidade do Estado (via crescimento, g, da equação, Default Grego?).  Mas como está desenhado no post, parece ser um antídoto tão poderoso que” matará o doente”. Tem a limitação de ser ceteris paribus, ou seja, não contempla medidas adicionias nem estabilizadores automáticos. Permitam-me flexibilizar o modelo e introduzir medidas concretas para expor o meu cenário e tentar alterar a percepção que é criada com o (correcto, embora desconsiderando outros efeitos) racíocinio económico aplicável à realidade Portuguesa do Afonso Eça:

 

- 1ª medida: corte do 14º mês, o subsídio de Natal

- 2ª medida: corte adicional de mais 5% nos salários dos trabalhadores da função pública que recebam  mais de 1500€ (desenganem-se que os directores não fogem para lado nenhum pois não têm para onde ir)

- 3ª medida: aumento do imposto sobre o consumo (IVA) em 2%

- 4ª medida: incentivo ao consumo de produtos internos (já existe propaganda neste sentido)

 

(1) C (Consumo) sofre uma enorme retracção. 

  • 1ª medida: Assumindo que a propensão ao gasto com consumo deste subsídio  é de 75% temos que a contração do C se situa nos -5.36% (1/14*75%)
  • 2ª medida: Visto que esta medida já foi uma vez aplicada, assumo que o impacto no consumo seja indêntico às existentes projecções do BdP, ou seja, uma correcção de -1.9% (fonte: previsões do BdP)
  • 3ª: Não tenho previsão exacta, mas usando os mesmos multiplicadores o impacto é de -1.5% no consumo privado (2%*75%) 

Usando o multiplicador do Consumo no PIB do BdP (66.6%) a retracção do Y (PIB nominal) por via do consumo é de -5.83% (um total de cortes avaliado em 8.76% vezes o multiplicador). Este valor deflacionado para o HICP projectado pela mesma entidade (3.6%) traduz-se numa perda real de -5.63% para a economia.

 

(2) G (Investimento Público) - o Estado tem de cortar despesa, logo diminuí o investimento público mas por ourta via com os cortes nos salários de 17.14% (5% já implementados mais a medida adicional de 5% e ainda o 14º salário 7.14%) consegue reduzir a despesa em 1.53% do PIB (segundo o INE os gastos com os salários na administração pública são de 8.93% do PIB, em 2008, logo um corte de 17.14% dará uma poupança líquida de 1.53%). Depois assumo que há um corte de líquido 5% nas despesas do Estado, já contemplando o efeito do aumento da carga fiscal (IVA). Saldo final -3.47%. Deflacionado e com efeito do multiplicador a contracção é de  -0.71% no PIB real.

 

(3) I (Investimento Privado) – estou consensual quanto aos efeitos explicados nesta rubrica. Aproveito para acrescentar que “a redução dos custos de produção podem criar novas oportunidades de investimento no território nacional”. Aqui assumo o mesmo valor que o BdP: -5.6%. Deflacionado e com efeito do multiplicador a contracção é de  -1.05% no PIB real.

 

(4) X (Exportações) – “dado a diminuição dos salários reais face ao resto do mundo, a nossa competitividade aumenta e portanto exportamos mais”. Sendo que 6% é a projecção do BdP sem ter em os conta cortes drásticos nos salários, penso que seja razoável falar em 10% de aumento nas exportações.

  

(5) M (Importações) – “apesar do consumo e outras rubricas diminuírem continuamos a ter de importar bens alimentares e energia, logo a diminuição não será drástica”. BdP assume 1.6% de cortes nas importações confirmando esta teoria. Com a campanha de sensibilização que visa esclarecer que códigos de barras são referentes a produtos Portugueses e o quão importante é para a Nossa economia o consumo dos mesmos, diria que uma redução de 2% é aceitável.

  

Contas finais: a contracção do PIB real em 2011 seria de 4.55% usando os inputs que aqui argumentei. O que fica aquém da não só da Grécia (-6.6% anualizando crescimento do 4º trimestre de 2010) como da Irlanda (que em 2008 sofreu um recessão que equivaleu a 10% do PIB). Este valor não me parece de todo drástico dadas as actuais circunstâncias e tendo em conta que é um medida com efeitos práticos imediatos para além de duradouros e que pode criar sinergias muito positivas na economia, numa segunda fase (explicar-me-ei quanto oportuno).

A tabela abaixo refere os números finais referentes ao PIB Português em 2010 na primeira coluna, as projecções do BdP para 2011 e finalmente o meu cenário nas outras colunas.

  

    BdP  BdP Projecção GSR Projecção  
  Pesos 2010 2011 2011  
Y 100% 1,48% -1,77% -4,55%
C 66,60% 2% -1,9% -8,76%
G 21,30% 3,20% -6,6% -3,47%
I 19,50% -4,80% -5,6% -5,6% BdP
Domestic Demand 107,60% 0,86% -3,7% -7,5%
Exports (X) 28% 8,70% 6% 10%
Imports (M) 35,60% 5,30% -1,6% -2%
           
Contribution to GDP growth          
Net exports   0,55% 2,25% 3,51%
Domestic demand   0,93% -4,0% -8,07%
Changes in inventories   -0,20% -0,10% -0,10% BdP
HICP   1,40% 3,60% 3,60% BdP

  

(Erros de arredondamento estão na base de discrepâncias de valores que a entidade disponibiliza e que tento replicar).

 

Gostaria de realçar mais um aspecto importante, nomeadamente a melhoria substancial da balança comercial que está implicita neste cenário.

 

A minha ideia subjacente é que um corte de salários, mesmo que muito acentuado, não é um “remédio” excessivamente forte para este doente. Aliás cortes similares foram efectuados na Irlanda (15%). Atentem por favor que não sou defensor duma austeridade desmedida com único objectivo de alcançar correcções macroeconómicas de curto-prazo. Todo este plano está inserido num pensamento que por ser extenso, exige outros posts de forma a ser completo e razoável. Pretendo provar que este ajustamento tão necessário pode efectivamente realizar-se sem pôr em causa a saúde económica de Portugal. Ao invés, num futuro próximo torna-a mais robusta.

 

Comentários indispensáveis: não sou isento das repercursões que vão ter tais medidas. Fique patente que quero o melhor para o meu País, se me dessem a escolher não hesitaria em enveredar por outra via. Acontece que é apenas esta (aliada com várias outras políticas estruturais já aqui referidas) que vejo a ter efeitos práticos no sentido de pôr as nossas contas públicas em ordem e criar um futuro virado para o crescimento. Em que o caminho a seguir é a produtividade e a inovação, através do investimento privado. E onde o Estado que tem como funções o mero apoio à economia ao invés de ser o motor da economia como actualmente. É patente que a entidade "Estado" é mal gerida (falta de visão estrégica que aponto no meu comentário ao post Portugal’s Unnecessary Bailout - Uma Nota), logo porque haveremos de confiar nela para gerir o nosso futuro competentemente? Desculpas pelo liberalismo desmesurado “à lá América” mas o que me ensinaram nas primeiras aulas de Introdução À Macroeconomia é que o Estado é ineficiente e que o mercado privado bem regulado (não excessivamente) é mais eficiente e capaz de gerar riqueza. Crescimento.

 

p.s. Peço desculpas pelo excesso de detalhes técnicos e pormenores não evidentes a quem não tenha contacto com o tema. Prometo que nos próximos posts será diferente  



publicado por Gonçalo Sommer Ribeiro às 23:53
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6 comentários:
De VC a 27 de Abril de 2011 às 23:48
Caro Gonçalo,

Admiro a sua dedicação na elaboração deste post . No entanto acho que existem alguns conceitos dúbios na construção das suas estimativas (não estou a dizer que estão errados mas sim confusos). Queria assim pedir-lhe, se possível, o esclarecimento de alguns detalhes:

(1) Quando fala no corte do 14º mês refere-se só à função pública? (se for verdade diria que a descida do consumo foi sobreavaliada pois os 66.6% representam o consumo de toda a população como percentagem do PIB, logo o efeito não é total).

(2) Quando se refere ao multiplicador do consumo está a falar dos 66.6% que representam a ponderação do Consumo no Produto Interno Produto?

(3) Estudos empíricos realizados por Blanchard indicam que uma variação de 1% no consumo representa normalmente, na economia Americana, uma diminuição de 1% no PIB. Uma regressão linear entre o consumo e o PIB em Portugal apresenta também resultados parecidos (-1% no Consumo representa -0.95% no PIB). Com este tipo de comportamento, será tão linear a estimação da reacção do PIB em relação à descida do consumo?

Sem me prolongar mais pois os outros pontos estão na mesma linha de pensamento, queria outra vez relembrar que a análise quantitativa que fez, embora não seja do meu agrado, chegou às conclusões referidas no Post anterior e é por isso interessante. No entanto acho que o valor que acrescentou às conclusões não é proporcional ao risco que é tomado ao transformar ideias em números sem informação mais detalhada do comportamento de uma economia

Quanto à liberalização da economia não poderia estar mais de acordo e penso que esse caminho é o correcto para o crescimento saudável e sustentado.

Cumprimentos,
VC


De Alexandre a 28 de Abril de 2011 às 10:45
O 14º mês não é o subsídio de férias?


De Afonso Eça a 28 de Abril de 2011 às 23:22
Caro VC,

Antes de mais obrigado por mais um comentário - têm sido bastante interessantes e obrigam- nos a uma exigência e rigor ainda maiores quando estruturamos as nossas ideias.

Quanto ao restante, penso que o post do Gonçalo arrisca nas estimativas subjectivas dos multiplicadores, mas tem o mérito de levar a discussão para um carácter mais técnico e formal - provavelmente mais correcto que o meu primeiro "approach".

Pessoalmente, como tem ficado expresso nos meus posts, tenho muita dificuldade em encontrar espaço para reduções de salários nominais em Portugal (mais do que já foram feitas) sem entrarmos numa espiral recessiva (talvez deflaccionária) - seja pela forma dos subsídios, quer pela redução efectiva dos salários.

Em termos de impostos (directos ou indirectos) não sei em ponto estamos da Curva de Laffer - tentei encontrar estudos mas não encontrei! - mas era bastante interessante estimar!

Quanto ao consumo de bens "made in Portugal" acho que é "wishful thinking" pensar que irá ter algum impacto - espero estar enganado!

Para concluir estamos perto de saber o "assessment" da troika e com isso espero que sejam divulgados números/ projecções e cenários que melhor nos permitam compreender o real estado da "res pública".

MC,

Afonso Eça


De Gonçalo Sommer Ribeiro a 1 de Maio de 2011 às 23:17
Caro VC,

Antes de mais queria desculpar-me pela demora na resposta. Depois, à semelhança do anterior comentário agradecer pela sua participação activa e consequente dinamização do blog. Realço também a qualidade das intervenções, nomeadamente esta.

Passo então a tentar desvanecer as dúvidas que possam ter ficado mal esclarecidas:
(1) O corte do 14º mês seria aplicado a todos. Tanto a função pública como sector privado. Apenas desta forma poderemos ganhar competitividade nas exportações uma vez que os bens transáccionaveis são produzidos pela iniciativa privada.
(2) Sim refiro-me ao multiplicador disponibilizado pelo BdP. O qual é utilizado como estimativa de impacto no PIB também por esta instituição.
(3) Tentei aceder a este estudo mas não me foi possível. De qualquer forma incluí os resultados do estudo (ceteris paribus) no meu modelo obtendo os seguintes resultados:
2011
Y -7,11% ↓
C -8,76% ↓
G -3,47% ↑
I -5,6% BdP
Domestic Demand -9,9% ↓
Exports 10% ↑
Imports -2% ↓

Contribution to GDP growth
Net exports 3,51% ↑
Domestic demand -10,62% ↓
Changes in inventories -0,10% BdP
HICP 3,60% BdP

Reparem que a contracção no PIB é de ordem semelhante à verificada nos países que também foram intervencionados.

Gostava de ressalvar que as estimativas do cenário que criei não passam disso. Não foi minha intenção tentar transparecer que ao se adoptar as medidas citadas se teria um efeito exacto e preciso que quantifiquei. É apenas um guião que nos permite compreender os impactos económicos da austeridade. Como refere há outros (muitos) efeitos a considerar. Mas defendo que o modelo do BdP que ulilizei gera uma percepção da realidade.

O valor que é acrescentado passa por discutir medidas concretas quantificadas e a definição duma visão sobre o que deve ser a política economica do País. No entanto este valor é potenciado se outros comentadores derem a sua opinião, seja por oposição ou por parcial concordância. Só com o evoluir do diálogo e troca de argumentos válidos se pode chegar a uma conclusão mais clarividente e segura de resultados práticos que se desejam benéficos para o País. Portanto a aplicação destas ideias fica sempre sujeita à sua validade e alternativa. O que por sua vez diminui o risco de virem a ser executadas como actualmente estão expostas.

Consequentemente gostaria de continuar a discussão da TSU que introduziu. Respeitosamente gostaria de perceber como vamos acabar com uma diferença de 30% de competitividade (perdida ao longo dos últimos 15 anos) com a alteração da TSU? E ainda se considera esta medida suficiente para restablecer a ordem nas contas públicas? Termino com um pedido: quais os defeitos que as medidas que referi têm (para além da falta de consideração dos seus impactos e má avaliação do riscos associadados à sua aplicação)?

@ Alexandre, a primeira medida deve ser vista como o “corte no subsídio de Natal”. É de vital importância esta questão. Pois o que penso é que o subsídio de Natal deve ser cortado e não o de férias. Isto porque o sector turístico em Portugal é muito importante para o País e é essencial para a motivação de qualquer trabalhador ter um período de férias. Obrigado pela sua contribuição.

Melhores cumprimentos,

Gonçalo Sommer Ribeiro


De VC a 4 de Maio de 2011 às 17:08
Caro Gonçalo,

Agradeço a resposta e quero, com os esclarecimentos feitos, adicionar alguns comentários.

Quando falei na relação de risco e valor acrescentado, não me estava a referir ao risco dessa medida mas sim do risco que o Gonçalo, pessoa pelos vistos interessada e preocupada nos problemas económicos e sociais, esta a tomar ao fazer uma interpretação pública de uma medida. No entanto respeito essa atitude e calculo que seja um amante da volatilidade.

Continuo a achar que está a fazer alguma confusão entre dois conceitos – weight e multiplier – e relembro que está num ambiente extremamente dinâmico e em que as abordagens estáticas deste problema ficam-se pelos primeiros anos da universidade. Posso quase garantir-lhe também “que o modelo do BdP” para estimar este tipo de comportamentos não utiliza esta metodologia e linha de pensamento. (“Mas defendo que o modelo do BdP que utilizei gera uma percepção da realidade.”)

Esquecendo esta divergência de opiniões – válida – a questão que levanto nesta altura é até que ponto é possível Portugal aguentar as suas responsabilidades com uma redução de 7.11% no PIB. Relembrando a equação referida por Afonso Eça reparamos muito facilmente que as variações propostas na sua projecção provocariam um aumento da dívida – Dt-1(r+7,11%) é superior que a melhoria da BP – situação que não ma parece desejada.

No final, posso dizer que as críticas e discussões que aqui apareceram em torno da redução dos salários nominais foram importantes, e as preocupações que surgiram da discussão parecem aproximar-se da realidade. Digo isto imaginando que já grande parte dos que aqui estão “presentes” perceberam que esta medida não vai ser implementada obtando-se pela redução da TSU, já referida neste blog, como um dos motores da competitividade e produtividade.

Ficam aqui uma sugestões para vossa atenção futura:

(1) Como vai reduzir Portugal a fuga à declaração de actividade (Shadow Economy em Portugal em % do PIB: aprox 20%).

Razões para isto acontecer:
a. Sistema judicial deficitário;
b. Níveis de tributação altos sem a percepção de retornos significativos para as pessoas;
c. A cultura e a “educação” que consideram esta prática normal;
d. A estrutura do sistema fiscal;
e. O valor elevado da circulação de dinheiro “papel”;

Cumprimentos,
VC


De Afonso Eça a 5 de Maio de 2011 às 10:59
Caro VC,

Mais uma vez obrigado pelo seu comentário. Como se veio a verificar a solução para aumentar competividade não passou pelo corte dos salários nominais, mas antes pela diminuição da TSU (aumentar competividade) e diminuição do peso do Estado na economia e a aumento da eficiência da administração fiscal. Mesmo assim, o programa contempla um decréscimo do PIB nos próximos dois anos.

Hoje ficámos a saber que vamos ter uma taxa de juro com a regra do EFSF, portanto irá estar proxima dos 5%. Com este número e uma recessão nos proximos anos, o caminho para a estabilizacao das contas publicas vai depender bastante da capacidade do Estado de gerar superavits e da economia de crescer.

A sustentabilidade das contas do país, medida pela balança corrente, também dependerá da capacidade do sector privado diminuir o seu endividamento externo (desalavancagem dos bancos e consequentemente contraccao do credito ao consumo/ habitacao, que provocara diminuicao do consumo privado).


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