Terça-feira, 26 de Abril de 2011
Evidências!

Tomo a liberdade de reproduzir neste blog uma notícia publicada hoje na versão online do Jornal de Negócios:

 

"Ratings e taxas de juro da dívida pública estão relacionadas

 

"A investigação hoje apresentada foi realizada pelo professor do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) e funcionário do Banco Central Europeu(BCE) António Afonso, Davide Furceri da OCDE e Universidade de Palermo, e Pedro Gomes, da Universidade Carlos III de Madrid, e analisa dados diários daquelas três principais agências de “rating” entre Janeiro de 1995 e Outubro de 2010.

"Há uma causalidade bi-direcional entre 'ratings' (avaliação financeira) e 'spreads' (diferencial face à dívida alemã). É mais relevante existirem 'downgrades' (descida na notação) se existirem acontecimentos negativos, ao contrário do que sucede se houver um acontecimento positivo", disse António Afonso, que foi o orador na apresentação do trabalho.

De acordo com o estudo, acrescentou António Afonso, “parece ainda haver algum efeito de contágio entre os países cujo 'rating' aumenta e aqueles que têm um 'spread' semelhante”.

De acordo com o economista e presidente do ISEG, João Duque, que comentou o estudo, trata-se de um efeito de ligação que mostra que enquanto uns países sofrem aumentos de “ratings”, outros países, mais ou menos próximos, vão sofrer também.

Além disso, João Duque frisou que os “outlooks” (perspectivas) antecipam o “rating”: "Quando as agências informam os seus ‘outlooks’, já o mercado reagiu e até agressivamente nos mercados dos CDS (seguros contra o incumprimento da dívida) e depois do anúncio da alteração do 'rating' o mercado reforça o que a agência acabou de notar". "

 

Alguém acaba de descobrir a pólvora! Não foram precisos estudos para que os portugueses minimamente esclarecidos chegassem à mesma conclusão!

Um estudo que ficará para a história!

 

 

 

 



publicado por HGjr às 22:28
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3 comentários:
De Afonso Eça a 28 de Abril de 2011 às 23:26
Henrique,

Sem dúvida, agência de rating atrás da bola. E quando chegamos ao ponto de passar de investment grade para baixo (junk) - o impacto nas posições que a maior parte dos investidores institucionais podem deter é gigante.

A maior parte dos investidores só pode deter investment grade - logo quando o PIG (Portugal, Irlanda e Grécia) é "downgradado" para junk - a maior parte dos institucionais tem de digitalmente vender todo o seu stock de dívida destes países.

Conclusão o impacto deste agentes de mercado que se dizem independentes e distantes - talvez tenha de ser regulado também!

Nada de novo - mais um estudo académico para dar credibilidade e força a esta tese!


De HGjr a 29 de Abril de 2011 às 07:44
No meu entender as agências de rating têm mantido uma postura reprovável. Depois de terem falhado claramente na avaliação do risco "subprime" - sem que lhes tenha sido imputada qualquer tipo de responsabilidade a nível oficial - parecem apostadas numa táctica de "jogar pelo seguro". Nesse sentido, mantêm o seu olho crítico sobre os países periféricos e vão baixando sucessivamente o rating para que em caso de default não voltem a ser acusados de ter feito uma má avaliação de risco. Ora a sua táctica tem criado uma pressão insustentável sobre as necessidades de financiamento desses países. Até o recente "puxão de orelhas" aos EUA me pareceu patético. Nada me convence que nada passou de uma encomenda do lóbi Republicano para pressionar a administração Obama sobre o orçamento, legitimando assim a proposta conservadora do congressista Paul Ryan . Muitos poderão pensar que fantasiei uma teoria conspirativa digna de um livro de Le Carré, no entanto, face ao ridículo que foi a notação da agência e tendo em conta o track record de avaliaçoes das mesmas agencias - a produtos e entidades que lhes pagam milhões de USD - não me parece uma leitura descabida. Para quando a criação de uma agencia de rating europeia?? Andará a UE a dormir? Durante quanto mais tempo estaremos subjugados a 3 agencias americanas, tendenciosas e chauvinistas, que ainda por cima já deram provas de falta de honestidade e competência ?...


De VC a 29 de Abril de 2011 às 14:58
If the market wants your failure you will fail.

Para mim esta frase descreve grande parte dos mecanismos do mercado em que claramente as agências de rating são uma ferramenta e ao mesmo tempo um motor de uma bola de neve que aumenta e esmaga qualquer “incompetente” que se deixa levar pela corrente.

É um círculo muito difícil de inverter pois, como o HGjr referiu, existem as pressões nas agências rating para se mostrarem eficientes (dado o historial já um pouco danificado) e para completar o circuito estão as instituições que têm de reagir aos “downgrades” para controlar as suas posições despejando assim títulos no mercado transformando-os mesmo em lixo (Tal como referido pelo Afonso Eça).

No entanto eu vim comentar este post com alguma pena pelo jornalismo português que limita-se a criar notícias bombásticas sem entender o conteúdo das mesmas. O objectivo do paper acima referido não era de todo mostrar a relação já muito conhecida entre spread e grade, mas sim as relações “contagiosas” entre economias semelhantes e as diferenças de timing entre downgrade e upgrade. Assim o objectivo era justificar de alguma forma a situação em que Portugal se encontra e alarmando para o caminho duro que vai enfrentar para voltar a ter uma posição decente no mercado.

Claramente não é a pólvora mas sim um aviso e um remainder para os menos sabidos.

Agência de rating europeia: sim apoio sem algum tipo de reserva, esperar para ver.

Cumprimentos,
VC


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