Quinta-feira, 14 de Abril de 2011
O Crepúsculo da Democracia
“No céu cinzento sob o astro mudo
Batendo as asas pela noite calada
Vêm em bandos com pés de veludo
Chupar o sangue fresco da manada
 (...)
Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhes franqueia as portas à chegada
Eles comem tudo,
Eles comem tudo,
Eles comem tudo e nao deixam nada”

Zeca Afonso, “Vampiros”

No passado dia 11 de Abril, desembarcou na Portela uma trintena (33 hoje…) de indivíduos de ar cinzento e enfadado. Noutra qualquer altura, este seria um acontecimento banal: um grupo de veraneantes do Centro / Norte da Europa numa curta deslocação a Portugal onde iriam disfrutar de um clima ameno e cerveja barata. Contudo, esta chegada nada teve de banal e muito menos de inocente pois tratava-se da delegação enviada pela “Troika” para governar Portugal nos próximos tempos.
Qualquer Português com um mínimo de orgulho patriótico não pode deixar de se sentir profundamente envergonhado e humilhado com este acontecimento. O povo “já não é quem mais ordena”. As conquistas de Abril foram chutadas para canto. Nos próximos tempos a “democracia será suspensa” – mas por muito mais de 6 meses, Dra. Manuela – e viveremos sob as ordens de Bruxelas e Berlim.
Todos sabìamos que nos próximos anos terão de ser feitos grandes sacrifícios e que o empobrecimento geral será inevitável. Contudo, ainda tinhamos uma escolha: fazê-lo pelo nosso próprio pulso (ainda que condicionado) mantendo a nossa dignidade e soberania intactas ou fazê-lo a mando de outros que vêm números mas ignoram rostos, tornando Portugal alvo de chacota pelo mundo fora. A gota de água que nos atirou definitivamente para o anedotário duma Europa, também ela cheia de problemas, foi a rejeição do PEC laboriosamente negociado por um Governo legítimo com o BCE e a UE e por estas instituições aplaudido e a consequente demissão do Governo por uma coligação puramente destrutiva e agente da vingança do Presidente da República.
Este desfecho era inevitavel? Obviamente que não! Portugal conta com profissionais brilhantes que dão cartas tanto entre portas como nos mercados mais competitivos do mundo: New York, Londres, Frankfurt... Será que esta troupe recem chegada conhece alguma poção magica? Não poderiamos nós próprios chegar às mesmas, e quiçá até melhores, soluções. Claro que podiamos! Não fomos capazes, por raivinhas e caprichos de formar uma selecção nacional de ataque à crise. E agora ficamos entregues a uma equipa de terceira divisão. Bonito serviço.
Para terminar, apenas uma observação. Os quadros do BCE, Comissão Europeia ou FMI, que vão decidir o nosso destino, estão longe de ser indivíduos brilhantes. Eles são “segundas escolhas” nos seus paises. Ao contrário do que se passa em Portugal, em que os melhores lideram empresas Portuguesas de referência internacional nos seus sectores e outros ocupam cargos em empresas e instituições internacionais atraídos por melhores salários e condições de trabalho, na Alemanha, Inglaterra, França... passa-se o inverso. Nesses países, ingressam nas fileiras dos organismos europeus aqueles que não entraram, ou não vingaram no Deutschbank, no Lloyds, na SocGen ou mesmo na Administração Pública dos seus Países.
A Dra. Ferreira Leite teve uma triste e sombria premonição: isto só lá ia com seis meses de suspensão da democracia. Enganou-se: vão ser seis anos. As grandes conquistas do nosso tempo – a democracia política e a economia de mercado – vão ser congeladas e o País vai ser entregue ao pior inimigo de uma e outra: a burocracia.
Abdicamos da nossa soberania, da nossa dignidade, do nosso orgulho para sermos governados por uma equipa de reservas europeia. Triste fado...


publicado por HGjr às 14:00
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