Quinta-feira, 7 de Abril de 2011
Portugal à procura dum Presidente
Tudo começou com o discurso de investidura do Presidente da Républica.
De um candidato eleito por menos de 1/3 dos eleitores esperava-se um discurso inteligente e generoso, lançando pontes de entendimento para os que tão maciçamente tinham virado costas ao jogo, abstendo-se, e para os que tinham feito outras opções, muito mais de 2/3 se lhes juntarmos os votos em branco injustamente descontados aos votos válidamente expressos. Confirmando as piores expectativas geradas pelo inenarrável discurso de vitória, o Presidente persistiu no tom ameaçador e vago que tinha designado de magistratura activa. A generalidade dos escribas gostou do discurso: para um país tresmalhado e pobre, o Presidente garantia ordem e progresso sem esquecer uma atenção sacramental e retórica para os mais desfavorecidos e mais tocados pela crise.
No dia maior da celebração da democracia o Presidente dividiu o país e os seus representantes. Foi um discurso sem alma e sem grandeza e sobretudo sem o desígnio mobilizador para um país cada vez mais desorientado com as cenas de impotência e de combate entre as instituições de quem se esperava concórdia e acção.
No que à vida partidária diz respeito, o discurso do Presidente deixou claro que o Governo estava a mais e ninguém duvidou a partir daí que mais cedo do que mais tarde ia ser apeado. Com a necessária humilhação para vingar a campanha negra que tinha ousado duvidar da honestidade do homem duas vezes mais sério do que qualquer português.
Despachado o governo, quis o Presidente aprisionar também a oposição, particularmente o putativo partido alternante, o PSD. No vulcão permanente que tem sido a vida do PSD, a ânsia de aceder ao poder tornou-se imparável e os assomos de homem de Estado que o Dr. Passos Coelho vinha ensaiando foram impotentes para travar o “eleições já” que o partido exigia. Confirmava-se assim que o líder do PSD estava definitivamente agrilhoado à estratégia de Belém: primeiro o inefável Dr. Catroga ofereceu-lhe, chave na mão, o acordo do orçamento; agora prepara-se para lhe outorgar um programa de governo para os próximos oito anos.
Acossado pelo radicalismo natural do seu partido, exacerbado agora pelo discurso incendiário do Presidente, o Dr. Passos Coelho deparou-se com a alternativa: ou abria a crise no PSD com a consequente e habitual defenestração do líder; ou criava uma crise política no país derrubando o governo. A aliança original e espúria com o PCP e o BE deve ter-lhe dado voltas ao estômago, mas os supremos interesses do partido e do Supremo Líder lançaram-no à aventura e a atirar o país para o abismo de uma crise sem precedentes conhecidos por qualquer português vivo. E assim chegámos onde estamos: sem política, sem governo, sem oposição e sem Presidente, que aos costumes disse nada, dizendo que nada disto era com ele. Mas se soubermos ler os sinais em que o Presidente se especializou não valerá a pena dramatizar: é que como abundantemente reportaram em tons e cores suaves as revistas do coração, na semana passada ou talvez antes, enquanto o país ardia e os responsáveis da banca e das empresas arrancavam os cabelos, em Belém celebrava-se o dia da poesia com um sarau que faria inveja à defunta Marquesa de Alorna. O país anda à procura de um Presidente? Não desesperem. Ele virá, envolto em neblina que nem El Rey Don Sebastião, no momento em que todos pensarem que já não faz cá falta!


publicado por HGjr às 12:25
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