Sábado, 4 de Junho de 2011
O mal menor

O acto eleitoral de maior importância na história recente do nosso país, ficará para sempre marcado pela campanha mais absurda, cobarde e anedótica de que há memória.  Durante 15 dias, nenhum dos partidos se atreveu a discutir as medidas consagradas no acordo com a “Troika”. Preferiram o ataque pessoal, a (des)culpabilizaçao, as arruadas, os comícios e as jantaradas com militantes. Nesta campanha tem-se visto um pouco de tudo, desde paquistaneses do Martim Moniz a apoiarem Sócrates  em Évora, Passos Coelho a oferecer uma “enxadinha” a uma popular descontente, pancadaria em arruadas, ameaças a jornalistas e, como não poderia deixar de ser, Paulo Portas a correr as feiras deste país oferecendo sorrisos  e bebendo “minis”...

 

No dia 5 de Junho Portugal voltará a entrar no livro do Guiness, desta vez não pelo maior pão com chouriço do mundo, mas por ter eleito um PM que aparentemente fez tudo para que isso não acontecesse. A campanha de Passo Coelho roçou o ridículo. Desde a escolha de Fernando Nobre, passando pelas declarações de Catroga e terminando com a polémica do número de ministros, tudo saiu errado. Noutro contexto, Passos Coelho arriscaria levar o PSD ao pior resultado da sua história, tal é a sua inépcia e viscosidade política. Passos é um político que fala durante a tarde de acordo com as notícias da manha... Não tem o mínimo sentido de estado nem a mínima ideia do que quer para o país. Tentou ganhar votos a direita com o aborto para logo depois virar à esquerda e se tornar um defensor do estado social. O programa do PSD é de um experimentalismo ideológico atroz... Os que o rodeiam não inspiram nenhuma credibilidade... Os próprios barões do partido não o apoiam (veja-se Pacheco Pereira ou Manuela Ferreira Leite que afirmou que o importante era derrubar Sócrates).

 

Sócrates perdeu as eleições porque, injustamente, lhe foi imputado (com a inenarrável conivência dos media) todo o ónus da situação terrível em que o país está mergulhado. Em alguns meses toda a gente se esqueceu do Simplex, das Novas Oportunidades, do Magalhães e do E-Escolas, do Tratado de Lisboa e, mais recentemente, do inédito acordo com todos os parceiros sociais. Em poucos meses, Sócrates passou de PM de Portugal a responsável pela falência da Lehman Brothers, pela crise do subprime americano e pelo ataque especulativo ao euro... O grande erro de Sócrates foi minimizar os impactos da crise internacional na economia nacional e ter cedido a tentações eleitoralistas em 2009. Sócrates está cansado, já não exala a confiança de outrora nem tem a mesma capacidade de mobilização. Não esqueçamos os ataques cobardes de que Sócrates foi vitima: o caso Freeport, o caso TVI, o caso Independente, a alegada homossexualidade enfim... Um rol extenso de assassinatos de carácter. E em todos eles ficou provada a sua inocência, para desespero da matilha de detractores.

 

Paulo Portas arrisca-se a ter o seu melhor resultado de sempre. Tem feito uma campanha “certinha”, sem se comprometer em matérias fracturantes, jogando sempre nos dois lados do tabuleiro deixando todas as janelas de oportunidade em aberto. O programa do CDS é um manancial de boas intenções mas sem nenhuma indicação quanto à sua aplicação prática. Portas pisca o olho aos militares e aos agricultores enquanto se coloca estrategicamente a esquerda do PSD, capitalizando no radicalismo liberal que tomou posse da Santana à Lapa. Os seus passeios pelas feiras são ridículos. Mostram Portas, um menino de família, fazendo um esforço indescritível para passar por plebeu, fazendo figuras ridículas e chegando a casa com o seu fato de marca a cheirar a sardinha e os sapatos cheios de bosta e palha...

 

Não me pronuncio quanto ao BE e ao PCP porque nenhum me merece esse tipo de consideração. Ao recusarem-se a reunir com a “Troika” não estavam a ser fieis ao seu eleitorado ou à sua ideologia. Estavam a afirmar-se como forças politicas inúteis, incapazes de contribuir para a definição do futuro do nosso pais. Num mundo perfeito, ambos os partidos teriam direito a um boletim à parte, para fazer de conta que interessavam para alguma coisa.

 

Entristece-me a falta de alternativas no nosso panorama político. Sócrates falhou e não mereceria voltar a ser PM caso se apresentasse um alternativa coerente... Sendo assim resta aos portugueses votar no que considerem ser o mal menor...

 

 



publicado por HGjr às 13:01
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2 comentários:
De J.C a 8 de Junho de 2011 às 02:03
É de uma tristeza atrós que a inteligência do Junior não lhe chegue para pensar por si só.
O clubismo no futebol é algo compreensível agora em termos de politica revela a vontade inerente de um jovem adulto que tudo o que procura é aprovação de um pai cansado pelos tempos modernos e saudosista do tempo dos cravos.
Caro Junior é com pesar que o informo que o seu grande Ex-PM é reconhecido internacionalmente como uma anedota. Aproveito também para lhe dizer que ou poe de lado as ideias do seu velho pai ou a única coisa que conseguirá atingir na vida é retórica de quem não tem argumentos.


De HGjr a 8 de Junho de 2011 às 07:53
Caro J.C ,

Em primeiro lugar, agradecer-lhe a sua preocupação e cuidado para com o meu futuro. Segundo, dizer-lhe que é exactamente por pensar pela minha cabeça, sem pretensões de agradar ou aquiescer a ninguém, que não alinho com a matilha daqueles que fizeram do "assassinato" de Sócrates o seu hobby nos últimos dois anos. Gostaria que exemplificasse quando refere que Sócrates é reconhecido internacionalmente como uma "anedota". Eu defendi sempre a mudança do elenco governativo e, a legitimação democrática de uma maioria parlamentar que tivesse espaço de manobra para levar a cabo as reformas necessárias. Apenas disse, e mantenho, que era preferível a aprovação do PEC IV para que então , com outro entorno mais estável , o país fosse para eleições Não retiro uma virgula sobre o que escrevi acerca de Passos ou Portas. No entanto, Passos é o meu PM , tem o meu voto de confiança para levar a cabo aquilo a que se prometeu. Espero que no final, seja obrigado a fazer mea culpa".
Creio que confunde a crítica a um escrito político com outro tipo de "rancores" que não tem lugar neste blog.
O único clubismo é o seu. Retire as palas dos olhos antes de voltar a criticar de forma tão amarga quem aqui escreve ou as suas raízes familiares.


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