Segunda-feira, 9 de Maio de 2011
Valerá a pena?

Escusei-me a comentar o acordo entre o governo e a troika sem antes estudar devidamente as medidas propostas no memorando de entendimento. Apenas referi, e mantenho, que os custos sociais do programa agora conhecido são bem menores do que a comunicação social e a carneirada de comentadores políticos e economistas de serviço fazia prever.

As medidas constantes do programa não diferem muito da cartilha tantas vezes implementada pelo FMI noutros países, independentemente da natureza do problema específico de cada um. Fiquei desiludido ao constatar que em 34 páginas não coube uma única medida de fomento da actividade económica. Algumas medidas são acertadas e ambiciosas (até mesmo utópicas em alguns casos como a erradicação de todos os processos em atraso na justiça até 2013) no que diz respeito ao corte da despesa. Contudo, nada dizem, nada prevêem, nada estabelecem quanto ao crescimento económico. Creio que as medidas são acertadas no que diz respeito à restruturação de alguns sectores, nomeadamente a saúde, educação e a Administração Central, Regional e Local. Oxalá consigam finalmente o milagre que vem sendo adiado de geração em geração.

 

Pelo contrário, são, no meu entender, desastrosas relativamente ao sector financeiro e alienação de património do estado. Porquê exigir um rácio de core tier I de 9% já este ano e de 10% em 2012 aos bancos portugueses? Estarão pior que os seus congéneres franceses, italianos, ingleses ou ate alemães? A criação de um fundo de capitalização da banca apenas cria no mercado e nas famílias a percepção de uma fragilidade sistémica inexistente, um convite descarado para a fuga de capitais. Custa bastante ver os bancos nacionais a vender ao desbarato operações de sucesso no estrangeiro para reforçar os seus rácios de capital. Custará muito mais a subsequente desalavancagem e congelamento na concessão de crédito que levará à falência centenas de empresas.

 

E o que dizer dos planos para a privatização da ANA, TAP, GALP, EDP ou o negócio segurador da CGD? Num país pobre e deprimido, vender barato e à pressa as últimas jóias da coroa é o golpe final. Defendo a privatização progressiva destas empresas mas nunca neste enquadramento macroeconómico.

Neste particular a teimosa e peregrina medida do programa do PSD de privatizar parte do Banco Caixa Geral de Depósitos, merece um post específico.

 

Valerá a pena todo este esforço para possivelmente em 2013 estarmos na mesma situação em que nos encontramos hoje? Como referiu Afonso Eça num post anterior, é necessário haver crescimento económico para evitar que a economia entre numa espiral recessiva... Para que, nas mãos destes endireitas, a cura não mate o doente...



publicado por HGjr às 19:19
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