Quinta-feira, 5 de Maio de 2011
Cambalhota Eleitoral

Quando no passado dia 23 de Março, José Sócrates apresentou a sua demissão ao PR, muitos se regozijaram e anteciparam uma contundente vitória laranja nas eleições legislativas que se seguiriam. Fui dos poucos que nunca duvidou da capacidade de resistência e da competência política do PM demissionário, pelo que me mantive na expectativa, não arriscando previsões quanto ao desfecho do processo eleitoral. Hoje, após ler o compromisso firmado entre o Governo e a Troika, creio que José Sócrates está a um passo de garantir a vitória.

No meu entender, Passos Coelho caiu em duas armadilhas: uma montada pelo PR e pelo seu próprio partido e outra montada pelo PS. O líder laranja, cedeu à tentação de fazer cair o governo, pressionado pelo discurso inflamado de tomada de posse do PR e o seu consequente “chamamento às tropas” no seio do PSD. Ao fazê-lo, Passos Coelho trocou uma maioria absoluta “sem espinhas” (pois nenhum governo depois de adoptar as medidas impopulares previstas no PEC IV estaria em condições de ganhar eleições) pela incerteza inerente a um processo eleitoral envolto em condições extraordinárias e enorme insatisfação social. A armadilha do PS foi negociar tudo com Bruxelas notificando o PSD à última da hora – no fundo o PS deitou o isco e Passos comeu sem mastigar.

Imediatamente após a queda do governo a nação política entrou em “modo eleitoral” (o seu modo preferido). A única diferença face a outras eleições reside no facto de a margem governativa para quem formar governo ser muito reduzida pelo que todos os partidos apostaram numa estratégia de imputação do ónus da crise. E a partir desse momento começaram os tiros no pé de Passos Coelho. Ora vejamos, começou por dizer que preferia aumentar o IVA e não cortar pensões para pouco depois afirmar que o corte das pensões seria muito provável; escolheu Fernando Nobre – o Invertebrado - para cabeça de lista por Lisboa criando uma onda de revolta no seu partido oferecendo de bandeja a capital ao PS; não foi sequer capaz de convencer as grandes figuras do seu partido a integrarem as listas (Ferreira Leite, Menezes, Marques Mendes...); questionou a utilidade da REFER Telecom, provavelmente a única empresa rentável do grupo, revelando uma total impreparação; insistiu na privatização da CGD, um tema sensível e controverso; mentiu descaradamente quanto ao encontro com José Sócrates... Tudo isto entre Março e Maio e sem enfrentar uma verdadeira campanha por parte do PS (que de mobilização eleitoral teve apenas o Congresso de Matosinhos)!!! Pelo meio ficámos também a saber que Miguel Relvas, o número 2 de Passos Coelho, gosta de cozinhar, de dormir uma sesta de 15 min todos os dias e da música dos Abba.

O PSD espera pela definição dos termos da ajuda internacional para apresentar o seu programa de governo. Entretanto o PS apresentou o seu programa – ambicioso mas sem conteúdo – e foi negociando com a Troika... O PSD têm-se entretido a questionar o grau de amizade entre José Sócrates e Teixeira dos Santos e a escrever cartas a Silva Pereira (creio que já vão 5) a pedir mais esclarecimentos quanto às contas publicas. Ainda ontem escreveu a última a pedir mais esclarecimentos, quando já toda a gente tinha em mãos o essencial do acordo.

Definidas as linhas gerais do pacote de ajuda externa, bem mais suaves do que o previsto, José Sócrates tem um trunfo de valor inquestionável: basta-lhe enfatizar os pontos mais positivos e acentuar o afastamento dos fantasmas ameaçadores dos grandes sacrifícios para o Povão (despedimentos, 13º e 14º mês…) – enaltecendo a capacidade de negociação do governo -, e colocar no PSD o ónus das medidas mais duras referindo que o PEC IV seria menos austero.

José Sócrates errou! Sim, errou muito! Merece voltar a formar governo? Talvez não! Mas o PSD foi incapaz de produzir uma alternativa credível! Inquestionável e que Sócrates tem muito mais capacidade politica que Passos. E desenganem-se os paladinos da justiça e da moral: qualquer que seja a cor do governo houve, há e sempre haverá clientelas, lóbis (veja-se o compromisso Mais Sociedade) e tentativas de controlo da comunicação social. Apenas o PS foi sempre muito menos hábil a manter tudo debaixo do tapete...



publicado por HGjr às 12:28
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7 comentários:
De Gonçalo Sommer Ribeiro a 5 de Maio de 2011 às 18:18
Caro HGjr .,

O PS está em modo eleitoral agressivo desde 23 de Março aquando o chumbo do PEC . Muito agressivo mesmo. Contra os arrivistas que chumbaram o PEC . Bandidos e maltrapilhos esses malandros que não passam o nosso plano. Só não vê esse discurso de campanha quem não quer. Aproveito para dizer que não estou a emitir qualquer opinião sobre o chumbo em si. Se foi boa decisão da oposição, se era um bom programa, etc.... Apenas a dizer que a campanha começou há muito tempo (aliás Passos Coelho já havia aberto as hostilidades ). Até o Ministro das Finanças entrou na contenda dizendo que o chumbo do PEC foi o trigger ” para tudo o que fez Portugal necessitar de ajuda externa. Quando já aqui foi discutido e explicitado noutros blogs por independentes ( http :/ www.pnetcronicas.pt /post.asp?id=4241,) que isso não é verdade. Desde o primeiro ao último post do Conversas entre Nós todos falasse da necessidade de reformas estruturais. Logo os problemas todos (estruturais também obviamente) não podem ter sido causados a 23 de Março de 2011 para justificar que no dia 5 de Maio de 2011 tivessemos visto um programa de reestruturação das finanças apresentado em inglês (sim, por pessoas que não concorrerem a eleições e consequentemente têm coragem de dizerem o que é necessário fazer).

E o congresso de Matosinhos não está longe de uma parada de Hitler no auge da sua propaganda política (não se entenda por favor que os líderes em si tenham semelhanças, apenas realço o capítulo da propaganda). A diferença é que houve dois realistas que expressaram a sua opinião diferente (abafada pela comunicação social) e ainda vivem. De resto os “força Zé” ou “está na tua hora” deixam a entender “força Zé, continua sem fazer reformas e a encaminhar o país para uma morte lenta” e “está na tua hora de asegurares mais uns tachos e fazer mais umas falcatruas antes que te ponham daí para fora”. Reparem mais uma vez que não digo que a alternativa faria melhor, ou mesmo diferente.

Passos mentiu descaradamente? Sinceramente não sei. Sei que quem se opõe à sua palavra (o PM) já foi apanhado a mentir dezenas de vezes (nem vale a pena enunciar os casos que esteve envolvido... e não me venham que são calunias, pois se for 1,2 até 3 ainda posso acreditar. Agora dezenas!?). Logo num duelo palavra de honra vs palavra de honra sei em quem não acreditar. Exemplo: no Conselho de Estado o PM diz que não houve discussão de ajuda externa. Os restantes dizem que sim. Ora deixa cá ver em quem vou acreditar, hein? Díficil escolha...

O caro HGjr . tem razão em muito do que diz:
1) Que Sócrates é um excelente político. Exímio demagago ao nível de Saturnino nos tempos da velha Roma. Veja-se a declaração no intervalo de um jogo de futebol dos mais vistos (forma do anúncio) o que disse: não haverá sofrimento, é tudo igual ao PEC IV e nada do que foi ventilado nos meios de comunicação social que vocês eleitores considerem duro vai constar no pacote (conteúdo do anuncio). Ora resta uma dúvida: quais são as medidas??? Não era esse o motivo da conferência de imprensa que pára o País para ver o Primeiro Ministro de Portugal falar??? Ou afinal era um espaço de campanha eleitoral previligiado camufelado??? É que assim não teria visto...
2) “o PS apresentou o seu programa – ambicioso mas sem conteúdo”. É mesmo do remédio que Portugal precisa! Progama existente mas SEM CONTEÚDO. Como fizemos imenso no passado vamos fazer mais nada no futuro. Excelente...
3) Auto destruição do Passos Coelho múltiplas e variadas.

“José Sócrates errou! Sim, errou muito! Merece voltar a formar governo? Talvez não!“

Interrogo-me quais são os motivos que ainda o fazem ter dúvidas? Gostaria de lhe dificultar a vida pedindo para que faça o exercício sem usar a oposição. Esse é outro assunto que deverá também ser discutido individualmente. Depois sim será interessante juntar as partes e ver tomar considerações sobre o todo.

Cumprimentos,

GSR

p.s. espero que não se repita o fim da história de Saturnino... Apenas até ao momento em que este perde os poderes.


De HGjr a 6 de Maio de 2011 às 08:02
Caro Gonçalo,

Nao entendo como podes ser tão peremptório a apontar as mentiras e os erros de Sócrates, e permaneças céptico relativamente à mentira descarada de Passos Coelho. Passos mentiu, ao dizer que tinha sido notificado por telefone quando na verdade se tinha reunido com o PM durante 4 horas. Mais, apenas confessou atabalhoadamente pois seria inevitável que Sócrates lhe desse a estocada final no debate televisão trazendo o assunto à baila. Concordo quando dizes que os problemas estruturais nao começaram a 23 de Março. Mas também não começaram apenas há 5 anos. O Prof. Catroga, que agora redige o programa do PSD, foi o mesmo ministro das finanças que esbanjou milhões de euros da UE e foi durante o seu mandato que se instituiu a Politica Agrícola Comum que matou a nossa agricultura e se desmantelou a nossa frota pesqueira. Hoje podemos agradecer ao governo ter adiado ao máximo o pedido de ajuda, dando tempo para que a UE BCE /FMI reformulassem o modelo de resgate desastroso que utilizaram na Grécia. Quanto à utilidade do PEC IV, não sou eu que o afirmo, é Jurgen Kroger , representante da UE, uma daquelas "pessoas que não concorrerem a eleições e consequentemente têm coragem de dizerem o que é necessário fazer". Concordo quando referes o ridículo da idolatração socrática no congresso de Matosinhos. Atenção , não sou um defensor de Sócrates , mas também não embarco com aqueles que só vêm defeitos na sua governação.


De Gonçalo Sommer Ribeiro a 8 de Maio de 2011 às 22:14
Caro HGjr,
Peço desculpa a frontalidade mas sinceramente pouco ou nenhum interesse tem esse ponto de palavra vs palavra. O cerne da questão que coloquei é que o actual PM é um mentiroso compulsivo. Sofre dessa patologia. Até agora houve dezenas de mentiras a serem abafadas e as outras que não foram passaram incólumes . Mas fica a ideia criada que há sem dúvida (muitas) vezes que o PM não diz a verdade. Como se pode votar numa pessoa que nos engana tão facilmente nesta conjuntura?
O Prof. Catroga implementou a PAC mas não é ele o seu obreiro. Como já referi anteriormente, a PAC faz parte da política da UE na qual temos pouco poder de decisão/negociação. É um dos "trade-off " por pertencer à UE.
Sobre se o timing do pedido de ajuda sendo um ponto positivo para Sócrates (nem acho que tenha sido mas enfim...), penso que estás a brincar. Parece que isso compensa pelo facto de nos ter levado para abismo onde estamos!
O PEC IV pecava por escasso. Nada mais. Esta pílula dourada que os portugueses pensam que vão tomar é dura e custosa. Lendo o memorando da Troika dá para entender que a base até pode ser o PEC IV mas o pacote é extremamente mais completo nas linhas orientadoras e exigente na carga fiscal. Logo mais uma vez este PM se preparava para não fazer o que era necessário. Porquê votar num incompetente que não faz o que é necessário?
Por fim gostaria que respondesses à minha questão: "Interrogo-me quais são os motivos que ainda o fazem ter dúvidas? Gostaria de lhe dificultar a vida pedindo para que faça o exercício sem usar a oposição. Esse é outro assunto que deverá também ser discutido individualmente. Depois sim será interessante juntar as partes e ver tomar considerações sobre o todo.". Pode ser que esteja enganado e mude da opinião que votar Sócrates não é apenas voto inútil como é voto anti-Portugal.

Melhores cumprimentos,
GSR

p.s. reforço que é uma crítica que visa única e exclusivamente José Sócrates não fazendo juízos de valor partidários nem espelhando intenções de voto (exceptuando a exclusão do mesmo, claro está)


De HGjr a 9 de Maio de 2011 às 07:59
Caro Gonçalo,

Depreendi do teu último comentário que José Sócrates é um grande mentiroso - compulsivo, que nisto de assinios de carácter não se devem poupar adjectivos - logo não merece a confiança para outro mandato. O que dizer então de Passos que ainda nem formou governo e já foi apanhado na primeira mentira. Daqui a 5 anos talvez já tenha direitos adquiridos para entrar na categoria dos mentirosos compulsivos. Não se trata, como referiste de uma situação palavra vs. palavra. Trata-se de uma mentira descarada que serviu de pretexto ao chumbo do PEC IV como bem saberás. Primeiro foi só um telefonema, passados uns dias uma reunião de 4 horas em S. Bento... Isto não é mentir?? Que diferença tem esta mentira das que apontas a Sócrates? É uma mentirinha laranja suponho...Também não entendo como podes dizer que o PEC IV era escasso se dele tinham apenas conhecimento o Governo, Bruxelas e pelos vistos Passos Coelho. Uma vez que o programa nunca viu a luz do dia creio ser precipitado e um exercício de especulação apelida-lo de escasso...
Quanto a PAC, realmente errei... Não foi o Dr. Catroga o seu arquitecto mas o seu companheiro de governo Arlindo Cunha. E, caso não te lembres, as negociações da PAC foram presididas por nós aquando da nossa presidência da UE e a sua assinatura foi celebrada com pompa em Lisboa. Festejámos a morte da nossa agricultura porque não houve alma com coragem de dizer aos responsáveis alemães que subsidiar o rendimento passado e não a produção era uma catástrofe ... Muitos tesourinhos deprimentes habitam os baús do Dr. Catroga e do PR Aníbal Cavaco Silva...


De Gonçalo Sommer Ribeiro a 9 de Maio de 2011 às 11:58
Caro HGjr,

No link abaixo pode encontrar um artigo interessante de um alemão independente do sistema político e especialista em economia. Peço a sua atenção para o artigo todo.

,http://www.ft.com/cms/s/0/3eb6bbc8-796c-11e0-86bd-00144feabdc0.html#axzz1LqPmGmbh,

Excerto do texto escrito por Wolfgang Münchau:

"The Greek government played it relatively straight but Portugal’s crisis management has been, and remains, appalling.

José Sócrates, prime minister, has chosen to delay applying for a financial rescue package until the last minute. His announcement last week was a tragi-comic highlight of the crisis. With the country on the brink of financial extinction, he gloated on national television that he had secured a better deal than Ireland and Greece. In addition, he claimed the agreement would not cause much pain. When the details emerged a few days later, we could see that none of this was true. The package contains savage spending cuts, freezes in public sector wages and pensions, tax rises and a forecast of two years’ deep recession.

You cannot run a monetary union with the likes of Mr Sócrates, or with finance ministers who spread rumours about a break-up.".

A notícia em português está aqui:

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=483433

Ainda me quer convencer a votar em Sócrates? Quer responder à minha questão por favor, sem utilizar a oposição? O debate não deve ficar por um mero telefonou ou não telefonou na minha opinião...

Cumprimentos,

GSR


De HGjr a 9 de Maio de 2011 às 14:46
Caro Gonçalo,
Nao concordo com a opinião expressa por Munchau . Alias, considero este artigo um ex-líbris da arrogância, sobranceria e chauvinismo alemão Elogiar o comportamento grego? Os mesmos gregos que mascararam contas com ajuda dos bancos de investimento americanos? Os mesmos que deviam "vender as ilhas"? Essa Grécia ou existe outra? Os Gregos chegaram a uma situação em só podem agir de forma "relatively straight "...
Quanto ao exercício de reflexão que propõe , não vejo viabilidade nem utilidade. Fazer uma analise sem oposição ? Muito bem! Sócrates foi um péssimo PM .... E agora? Voto em quem? Em branco? Ah, afinal há que analisar e comparar com alternativas. Quais são elas? Tríplice Passos, Relvas e Marco António... Portas... Jerónimo... Louça... Talvez acabe por votar Garcia Pereira e no MRPP.
O debate nunca se centrou no telefonema. Não se pode é chamar mentiroso ao Sócrates e depois ignorar a mentira de Passos. Mentira é mentira, aqui e na China. Neste debate não há inocentes. Nem a estátua sentada em Belém.


De Gonçalo Sommer Ribeiro a 9 de Maio de 2011 às 15:45
Chegamos a uma conclusão no campo Sócrates: foi um péssimo PM. Concordo. Portanto à partida não terá argumentos suficientes para levar o voto. Agora vejamos a oposição (não é que a queira deixar fora da equação... aliás está escrito na pergunta: "Esse é outro assunto que deverá também ser discutido individualmente. Depois sim será interessante juntar as partes e tomar considerações sobre o todo.").
Porquê não votar em cada um dos que enumerou?
Depois peço para que compare as razões que o faz não votar em cada um e veja quais são as mais fortes. No fim gostaria de saber se a conclusão é de facto votar em José Sócrates (se é o melhor entre os piores).

Cumprimentos,

GSR


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